quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Campanha "Favela: eu sou daqui!" no Viva Favela - www.vivafavela.com.br




Pelo fim do preconceito
Renata Sequeira - 26/11/2008 - rsequeira@vivario.org.br


Eles ainda são um grupo pequeno, apenas oito jovens em um universo de mais de 300 mil que vivem em favelas do Rio de Janeiro, mas com um objetivo: ajudar a diminuir o preconceito que jovens moradores de áreas de baixa renda sofrem. Com uma média de 20 anos, eles resolveram se juntar e lançar a campanha “Favela: eu sou daqui!”, que aborda o preconceito e a violência que muitos deles sofrem diariamente pelo simples fato de morarem em uma comunidade.

Segundo Verônica Moura, moradora do Santa Marta, uma das integrantes do grupo, a idéia é atingir pessoas que não têm contato direto com a realidade das favelas atraindo mais pessoas para a causa.

Verônica vê dificuldades em abordar as pessoas
Verônica vê dificuldades em abordar as pessoas
“Nosso objetivo é mostrar que a cidade do Rio é formada pela favela e pelo asfalto e queremos diminuir uma distância que possa existir entre essas áreas. Por isso, nosso público alvo são as classes média e alta para que possa ocorrer uma mudança na visão que eles têm sobre os jovens moradores das comunidades”.

A campanha, lançada no início do mês, já percorreu diversos bairros distribuindo o material produzido, como cartões postais, cartazes e conversando com as pessoas para explicar o objetivo da campanha. “Até agora, nós estamos sentindo uma certa dificuldade de abordar as pessoas nas ruas. Algumas nem prestam atenção, outras pensam que estamos vendendo alguma coisa e nem param para falar com a gente”, conta Verônica Moura de 24 anos.

O projeto que recebe apoio de instituições como o Cedaps, Luta Pela Paz, Observatório de Favelas para capacitar os jovens e aprofundar o tema entre os jovens.

Samuel: nós também temos preconceitos
Samuel: nós também temos preconceitos
“Nós passamos por um período de capacitação para depois pensar e desenvolver a campanha. Talvez tenha sido o momento mais importante, porque começamos a perceber que também temos preconceitos”, explica o morador de Engenho da Rainha, Samuel Marques de 21 anos.

“Hoje eu sinto mais orgulho do lugar onde moro. Antes, não falava que vivia na Vila Aliança, dizia que a minha casa era em Bangu”, completa Bruno Bastos.

A relação dos jovens com o lugar onde moram foi um dos motivos que o levaram a pensar na campanha contra o preconceito. Eles já perderam as contas de quantas vezes sofreram alguma discriminação quando disseram que moravam em favela. “Nós ficamos sabendo de vários jovens que tentam estudar ou conseguir um emprego e são discriminados por causa do lugar onde vivem. Recentemente, eu sofri com isso. Quando a minha filha nasceu, a recepcionista da maternidade me olhou estranho quando disse que morava na Maré”, relembra Michele Aldeia.

Outro ponto destacado pelos jovens foi que durante esse período, eles aprenderam que também têm direitos. “Não podemos achar natural a forma como os policias atuam nas favelas. Eles sobem o morro e acham que todo mundo é bandido. Até a mesma forma de abordar é diferente fora da favela”, explica Verônica.

Michele sofreu discriminação na maternidade
Michele sofreu discriminação na maternidade

“Nós temos que mudar essa realidade, não podemos nos acostumar com isso. Há algum tempo eu estava na sala da minha casa, com meus dois irmãos menores e a polícia entrou na sala”, recorda Michele.

Rapazes são as principais vítimas do preconceito

Todos os jovens concordam que são os meninos que mais sofrem com o preconceito. “Eu já fui parado pela polícia, porque estava correndo. Eu tinha brigado com a minha namorada, ela saiu na minha frente e eu fui atrás. Já saíram do carro apontando a arma, nem me deram a oportunidade de falar nada. Fiquei sentado por meia hora e só fui liberado porque uma amiga minha me viu naquela situação e disse que eles só estavam fazendo aquilo porque eu era negro e morava na favela”, lembra Samuel.

Priscila orgulha-se da campanha
Priscila orgulha-se da campanha

Mas não é só de lamentos que vivem esses jovens. Desde o início da preparação da campanha, eles já tiveram êxitos. “Durante a capacitação, nós participamos de dois encontros com alunos de colégios particulares de Botafogo e Laranjeiras. Nenhum tinha contato com favela, mas um deles disse: ‘Eu tenho certeza que não é tudo aquilo que é mostrado na televisão. Parece que estamos no Iraque’. Isso já é um ganho, porque ajuda a rever e refletir sobre vários preconceitos que nós temos e não sabemos”, orgulha-se Priscila Santos, do Morro do Adeus.

Segundo Verônica, um dos alunos disse que a mãe pedia para ele descer no ponto de ônibus anterior ao morro Santa Marta.“A imagem que chega sempre é da violência. Quando contei que no Santa Marta tem até grupo de chorinho, eles nem acreditaram”, diz Verônica, que está grávida de sete meses e diz que resolveu participar da campanha pelo filho que vai nascer. “Eu não quero que alguém diga que meu filho vai ser mais um bandido”.

3 comentários:

Liquificadorizando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Liquificadorizando disse...

Como colecionadora de Micas peguei a do Projeto, "Favela, eu sou daqui".

Quando cheguei em casa li e me surpreendi com um projeto tão bem elaborado, justo e criativo. Eu não moro em comunidade, mas sei perfeitamente o que é ser vítima de preconceito. Preconceito é burrice, como já disse Gabriel, o pensador.

Dou a maior força pelo fim do preconceito! Se precisarem podem contar comigo, sou atriz, escritora e produtora.

Divulguei no meu blog:
http://alexandraperiard.blogspot.com/

E coloquei o blog de vocês nos meus favoritos, assim mais pessoas podem ficar sabendo de uma iniciativa tão válida.

Beijos e sucesso!

Robson disse...

Eu conheci o projeto pelo RJTV e queria muito saber como participar.